PROJETO DA ESCOLA SECUNDÁRIA DE TONDELA APRESENTADO NO CONGRESSO INTERNACIONAL “ENSINAR CAMÕES NO SÉCULO XXI”
A Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra acolheu, de 27 a 29 de novembro de 2025, o Congresso Internacional “Ensinar Camões no Século XXI”. O encontro foi organizado pela Faculdade de Letras, pelo Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos (CIEC), pelo Centro de Literatura Portuguesa (CLP) e pelo Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (CECH), contando com o alto patrocínio da Estrutura de Missão para as Comemorações dos 500 anos do Nascimento de Luís de Camões e da Reitoria da Universidade de Coimbra.
No dia 28 de novembro, a coordenadora das bibliotecas escolares, Elisa Figueiredo, apresentou a comunicação “Semeando Camões: vozes na rádio, raízes na escola”.
Inovação Pedagógica e Interdisciplinaridade

A intervenção deu a conhecer um projeto transdisciplinar desenvolvido na Escola Secundária de Tondela, focado na inovação das práticas de ensino e na criatividade pedagógica em torno da obra camoniana. A comunicação destacou a articulação entre a educação literária, a rádio e a educação ambiental.
O projeto teve a sua génese na exposição “As plantas na obra poética de Luís Vaz de Camões”, da Universidade de Coimbra, a qual esteve patente nas bibliotecas do Agrupamento de Escolas de Tondela Tomaz Ribeiro, e resultou de um trabalho de estreita articulação entre a biblioteca escolar, as equipas educativas do 8.º ano, o clube do ambiente e demais parceiros. O objetivo central passou por unir a educação literária a áreas como as ciências naturais, a educação visual e a música, promovendo uma aprendizagem baseada na cocriação.
Educação Ambiental e Artística

A comunicação detalhou as diversas iniciativas que permitiram uma abordagem prática e dinâmica ao legado do poeta, começando pela produção radiofónica no âmbito do projeto “O Som dos Livros”: os alunos criaram um programa de rádio dedicado à vida de Camões e à presença das plantas na sua obra lírica e épica, no qual musicaram e cantaram também excertos da obra camoniana, com transmissão pela Rádio Observador.
Esta vertente aliou-se à educação ambiental e artística através da criação do “Jardim Camoniano” na própria escola, um espaço vivo onde as plantas mencionadas na obra do poeta são identificadas por placas com QR codes e ilustrações científicas elaboradas pelos alunos. Complementando este trabalho, realizou-se um estudo de campo com visitas à Serra do Caramulo, permitindo a identificação direta da flora autóctone referida n’Os Lusíadas e na lírica camoniana, unindo assim o conhecimento literário ao território.
Ensinar Camões no Século XXI: A Transformação do Olhar e do Espaço

Para além da vertente interdisciplinar, a participação do agrupamento neste congresso serviu para sublinhar a relevância de inscrever Camões nos espaços do quotidiano.
A transformação não ocorreu apenas na paisagem natural; houve uma reconfiguração profunda do espaço vivido. Ao associarem as plantas da Serra do Caramulo aos trechos poéticos camonianos, os jovens mudaram o seu olhar sobre o território. A serra familiar ganhou uma densidade, uma espessura poética e imaginária que não possuía anteriormente, provando que caminhar naquelas encostas com Camões é uma experiência diferente de caminhar sozinho.
Esta metamorfose estendeu-se ao próprio recinto escolar com a criação do Jardim Camoniano. Onde antes existia apenas um espaço de passagem, floresce agora um território de memória e saber. Ao habitar e cuidar deste jardim, os alunos inscrevem a poesia no seu dia-a-dia, transformando a escola num lugar onde o “engenho e a arte” se enraízam no solo. Ensinar Camões no século XXI revela-se, assim, como o desafio de dar novas cores ao mundo próximo, tornando a literatura uma presença viva que altera a forma como habitamos, no sentido literal e figurado, os nossos espaços comuns.
Elisa Figueiredo (Coordenadora das Bibliotecas do Agrupamento de Escolas de Tondela Tomaz Ribeiro)